[SÉRIE] Clubes de discos no Brasil – Quando ninguém acreditava em vinil: A história da Noize que mudou o mercado de discos

Série Clube de Discos no Brasil. Episódio 1 - Noize Record Club.

O Disconecta é apoiado pelos leitores. Se você comprar através de links neste site, podemos ganhar uma comissão de afiliado, sem nenhum custo extra para você.

Fala, Disconector! 🎶

Estamos começando uma série que promete agitar a sua coleção e a sua carteira.

Toda semana vamos trazer as dúvidas reais de quem assina (ou está pensando em assinar) um clube de vinil no Brasil. Vamos contar a história de cada um, entender como funcionam e conhecer os bastidores de quem está revolucionando o jeito de colecionar disco por aqui.

Nessa primeira conversa, nosso convidado é a Noize Record Club, o clube que abriu o caminho para todos os outros. Antes dela, ninguém tinha coragem de tentar. Depois dela, virou tendência. Vamos desvendar como tudo começou, quem está por trás dessa ideia maluca, e claro, responder aquelas perguntas que você sempre teve medo de fazer.

Mas antes de entrar no tema desse primeiro capítulo da série, deixa a gente apresentar os personagens que vão participar dessa série: além da Noize, vamos conversar com Três Selos, Clube de Vinil Universal Music e Vloot. Cada um com sua filosofia, seu público, seu jeito de fazer as coisas.

A história: De revista impressa a clube de vinil

Tudo começou em 2006, em Porto Alegre, com uma pergunta simples que mudaria tudo: “Por que nenhuma revista de distribuição gratuita fala sobre música?”

Rafael Rocha e Kento Kojima, dois estudantes universitários, fizeram essa pergunta olhando para as revistas que circulavam pela cidade. Viram espaço para anúncios, viram oportunidade mas também viram muito mais do que isso. Viram a chance de criar um espaço onde pudessem falar sobre os sons que curtiam, documentar a cena que estava acontecendo ao seu redor.

“A gente abria as revistas, contava os anúncios e pensava que era fácil. Mas quando começamos a fazer foi bem diferente”, conta Rafael, que além de fundador segue como diretor criativo da Noize até hoje.

Em 2007, a revista finalmente saiu do papel. Começou como publicação impressa gratuita, distribuída em bares, casas de show e pontos de encontro da cena musical de Porto Alegre. Depois expandiu para todo o Rio Grande do Sul, para o Brasil inteiro. Enquanto isso, Pablo Rocha (irmão de Rafael) e Maria Joana de Avellar (editora na época) ajudavam a estruturar a coisa toda.

Por mais de sete anos, a Noize foi só revista. Boa revista, diga-se de passagem (tenho várias delas guardadas na casa dos meus pais). Mas em 2013 e 2014, o mercado editorial começou a despencar. A internet estava devorando os anúncios, as marcas estavam migrando para digital, e manter uma publicação impressa ficava cada vez mais complicado.

📬 A paixão pela mídia física não para por aqui!

Assine a newsletter Papo de Colecionador da Disconecta, um clube de apaixonados por colecionismo de LPs e CDs onde você recebe direto na sua caixa de entrada a nossa curadoria semanal: guias de equipamentos, reviews profundos, dicas de manutenção e promoções quentes. Junte-se ao clube exclusivo de colecionadores.

Final post

Foi aí que Rafael teve uma ideia que parecia loucura na época: e se a gente transformasse a revista em parte de um kit? E se cada mês a gente mandasse um disco de vinil exclusivo junto com a revista?

Ninguém estava fazendo isso na América Latina. Ninguém. Mas a Noize topou o desafio.

Em 2014, nasceu o Noize Record Club, o primeiro clube de assinatura de discos de vinil da América Latina. A primeira edição foi especial: uma versão remasterizada de “Antes Que Tu Conte Outra”, do Apanhador Só, em vinil vermelho translúcido de 140 gramas, com capa exclusiva.

A ideia era simples na teoria: cada mês (depois trimestral, depois mensal de novo), os assinantes receberiam um LP acompanhado de uma edição da revista dedicada inteiramente àquele disco. Matérias, fotos, contexto. Tudo pensado para amplificar a experiência de ouvir vinil.

O resultado? A revista impressa não só sobreviveu como voltou a fazer sentido. Hoje, a Noize é uma coisa só: revista e clube são inseparáveis. Um alimenta o outro.

De lá para cá, foram 100+ edições. Clássicos indispensáveis como Os Afro-Sambas (Vinicius de Moraes e Baden Powell), Disco Club (Tim Maia), passando por artistas contemporâneos como Marina Sena, Liniker, O Terno, BaianaSystem. Cada um com sua história, sua prensagem especial, seu encarte pensado.

Hoje, a Noize tem aproximadamente 9 a 10 mil assinantes espalhados pelo Brasil com maior concentração em São Paulo e Rio, mas com presença em todos os estados. É o maior clube de vinil da América Latina.

Como funciona o clube: Os Bastidores da curadoria

Se você já pensou em assinar mas ficou com aquela pulga atrás da orelha, fiz contato com a galera da Noize e mandei algumas perguntas para desvendar como tudo funciona por trás das cortinas.

A curadoria: O coração da parada

Tudo começa com a curadoria. E não é qualquer coisa. A Noize trabalha com três frentes principais: relevância artística do álbum, potencial para uma boa edição em vinil (porque nem todo disco soa bem no formato), e oportunidade de contar uma história, seja revisitando catálogos importantes, seja trazendo lançamentos inéditos que merecem estar em vinil.

Mas aqui vem o legal: a comunidade tem papel direto nisso. Os assinantes votam, sugerem, comentam. A Noize realmente ouve. Isso dita caminhos que talvez a galera não tomasse sozinha.

Claro que tem limitação legal envolvida. Tem títulos que eles adorariam lançar, mas as questões de copyright, autorização dos autores e da gravadora travam a parada. O processo pode levar meses só pelas liberações, é burocracia mesmo, infelizmente.

O calendário: Quando você fica sabendo

Aqui é importante ficar atento. Todo dia 10 do mês, a Noize anuncia qual será o disco do mês. Isso é importante porque você consegue ver o que vem antes de ser cobrado.

As cobranças da assinatura? Acontecem nos dias 12, 20 e 28 de cada mês. Isso significa que você tem um tempinho entre o anúncio e a cobrança para decidir se quer continuar ou não. Flexibilidade é importante nessa história.

A entrega, aí sim, demora. Depois que você assina ou compra avulso, o disco leva de 3 a 5 meses para chegar na sua casa. Não é rápido, mas faz parte do processo de prensagem, qualidade, logística. O processo é artesanal, então, aqui conta a paciência mesmo.

Qualidade: Onde entra o Marcus Abreu

Aqui a Noize não brinca. A taxa de defeito é de 5%, bem abaixo da média do mercado. E sabe por quê? Porque o Marcus Abreu, engenheiro de som da Noize, acompanha pessoalmente a prensagem. Os discos são testados antes e depois de serem enviados. Marcus Abreu é importante técnico gaúcho que há mais de 30 anos trabalha com isso, já masterizou obras de Vitor RamilJosé Miguel WisnikNei LisboaCachorro GrandeFresno Renato Borghetti, entre muitos outros. São mais de seis mil discos com sua assinatura, além disso tem passagens pelas principais gravadoras do país e do mundo como SonyEMI Warner.

Descentrado? Nunca mais. A Noize não tem problemas com descentrados há anos justamente por esse acompanhamento técnico. Se chegar empenado, rasgado no encarte ou amassado pelos Correios, eles trocam. Sem drama, sem burocracia.

O diferencial real: Preço + comunidade

Vamos ser honesto: comprar disco avulso no mercado é mais caro. A Noize consegue oferecer um valor melhor porque distribui o custo entre os assinantes. Além disso, ser membro do clube abre portas. Você tem acesso a reprensagens de discos esgotados, descontos em ingressos de shows e eventos, e uma série de benefícios de fidelidade que o mercado avulso não oferece.

É como estar em um clube de verdade, não só recebendo disco em casa.

A questão da satisfação: E se não gostar?

Essa é a pergunta que todo mundo faz. A resposta é: ainda não existe opção de troca automática se o disco não agradar. Mas a Noize criou uma solução criativa para isso.

Desde o ano passado, eles organizam o Circuito Troca-troca NRC nas capitais, eventos onde os assinantes trocam discos entre si. É tipo um encontro de colecionadores onde você pode negociar, trocar, conversar sobre música. Funciona bem, cria comunidade.

Mas a galera pede mesmo é uma funcionalidade de troca dentro do sistema. A Noize está estudando isso, porque entendem que nem sempre o gosto bate. É um ponto que pode evoluir.


Quer receber promoções diárias direto no seu whats app? Entre no grupo de ofertas de LPS e CDs da Disconecta


Sobre o Autor:

Foto Marcelo Scherer

Marcelo Scherer

Marcelo Scherer é jornalista e um colecionador obstinado por LPs e CDs. Aos 46 anos, une o rigor da apuração jornalística com décadas de experiência prática garimpando e preservando discos. É o fundador do portal Disconecta e apresentador do podcast Papo de Colecionador. Aqui no Guia, ele testa equipamentos e compartilha métodos testados na prática para ajudar você a cuidar do seu acervo e investir nos aparelhos certos.

4 comentários em “[SÉRIE] Clubes de discos no Brasil – Quando ninguém acreditava em vinil: A história da Noize que mudou o mercado de discos”

  1. Olá pessoal!
    Li tudo e achei a ideia fabulosa!
    Mas me deixe dizer umas coisas que vcs precisam saber.
    Coleciono LPs desde os 14 anos, qdo meus irmãos mais velhos se casavam e uns 500 LPs ficaram. Sou jurássica assumida, e pro meu azar, não tenho encontrado LPs da época; só 180gr que eu dispenso no ato. Gasto grana com 1ª press e nem assim tenho encontrado. Reedição também eu dispenso. Destes 500 LPs 1ª press, qdo eu tinha 14 anos, devo ter, por baixo, 2.600 LPs. Ainda é pouco, se formos calcular por proporção. Então, sendo franca, não sei se serei uma cliente ideal. Ainda procuro por muita coisa que perdi, amigo levou e por lá ficou etc.
    Se….se (condicional) eu tiver 60% de chances de reaver as joias perdidas através de vcs, topo arriscar. Consegui tudo sobre label, número e códigos que identificam se é ou não repress. série, cor do label, e tipo LP dos anos 60/70 lacrados… jamais. Fakes.
    O que me dizem?
    Abraços
    Fernanda

    1. Oi Fernanda! Primeiro, parabéns pela coleção e o cuidado que tem em escolher os itens, é muito gratificante ter uma coleção com esse nível de exigência, uma pena que não é para todos 🙄.

  2. Olá Marcelo! Tudo certo?
    O lance do clube é interessante. Mas o problema é receber o que não curte ou já tem. Como seriam as trocas na Noise ou outras?

    1. Bom dia Claudio!, então, pelo que consegui apurar com eles, eles estão fazendo encontros de trocas nas principais capitais no país. Mas acho ue não vai rolar em todas cidades ainda! Abs

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Rolar para cima